quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Agora sim!

Boas notícias!
Tenho casa!
Ufa, enfim.
Isso é tão bom que o resto anterior eu esqueci.
Mas posso contar um pouco de como estou.
No saldo do momento, estou feliz. A casa é grande, fica num bom lugar, meu quarto é claro e arejado. Minha colocataire é argeliana, mas os pais moram na Arábia Saudita. Ela é muito, muito simpática e sempre se oferece para me ajudar com o que eu preciso.
A casa estava sem móveis, então fomos comprar uma mesa para comermos, cadeiras, cortina para a banheira, coisas assim. Montamos tudo anteontem, e devo admitir que não me saí mal. Minhas mãos ficaram com bolhas, mas adoro ter esse tipo de habilidade, mesmo que isso dê ensejo à ideia de que o povo do Brasil é trabalhador braçal. Não é verdade, porque mesmo no Brasil eu sou exceção; mas me orgulho de ter aprendido com meu pai a trocar uma torneira, embora até ele hesitasse um pouco a me dar serviços que não são de mocinha.
Ontem consegui comprar uma cama e um colchão. Fui até um apartamento que era impossível de encontrar, num conjunto de prédios com uma vista incrível de toda a cidade (incrível mesmo) e fiquei pensando na questão da privatização das belas vistas. Quem não queria ter a praia na janela? Aí vem alguém, paga mais caro e coloca um prédio na frente do seu, sua janela passa a ver uma parede. Legal, né? Sei que não tem muito como evitar isso, mas é meio chato, de qualquer forma. As coisas mais bonitas deviam ser acessíveis a todos, porque mesmo que a teoria de que são raros os bons apreciadores fosse verdade, a gente nunca poderia prever em que camada social eles nascem. O moço da casa não parecia um bom apreciador. Primeiro porque aquela janela dispensava TV, mas, vá lá, questões culturais -  mas sobretudo porque, mesmo com aquela vista todos os dias, ele conseguia ser antipático. Não disse uma palavra a mais do que a necessária, parecia nervoso ou irritado, não sei se por causa do meu francês, pedi desculpas, de qualquer forma - ele disse que não era grave.
Ele levou a cama desmontada até a porta do meu prédio, eu subi com as coisas, montei a cama, limpei o quarto. Ufa, agora meu quarto até parece um quarto!
Uma belezinha.
E o colchão estava tão confortável que perdi a primeira aula da manhã. Até agora estava dormindo em um colchão inflável, então foi uma melhora significativa.
Ah, sim, vale dizer que me mudei no sábado, e antes disso passei dois dias na casa da Louisa, uma francesa que foi ao Brasil, fala português e também foi muito simpática comigo.
No domingo fui ao centro velho novamente e comi uma salada lyonaise, uma delícia. Folhas, tomate, croutons (torradinhas), bacon, um molho gostoso e - ovo pochet quentinho. Tentem o ovo pochet, ficou genial!
Tenho que experimentar mais queijos, e programar minhas viagens por aí.
Mas antes dessas despreocupações ainda devo fazer algumas coisas administrativas (entregar papéis sobre a moradia aqui e acolá) e ainda definir meus cursos.
As aulas já começaram, mas ainda não sei quais cursos fazer. Os do segundo ano são um pouco tranquilos, porque eles ainda não estudaram coisas que já estudei, mas os do terceiro ano acho que são um pouco complicados, e estou na dúvida sobre o quanto aceito me esforçar para o tanto que gostaria aprender. O primeiro é sempre pequeno demais e eu nunca limito o último. Dúvida de sempre.
Uma vez eu escolhi uma matéria difícil no Brasil. Era Husserl. Não aprendi nada. Acho que talvez valha usar isso como exemplo, para a vida. O problema é que uma vez escolhi uma matéria que parecia aula do ensino médio e também não aprendi nada. O que me faz pensar que talvez o problema seja comigo, infelizmente.
Por último, vale lembrar que estou ainda sem internet, então está um pouco difícil me comunicar. Quando abri os e-mails tinha muita propaganda e um monte de resultados de anúncios de casa, além de misturadas mensagens que não li ainda, mensagens que li e não respondi na hora, e que já respondi, etc. Nessa bagunça posso falhar em responder alguém - o que é horrível, porque realmente fico muito feliz com qualquer mensagem carinhosa. Então me perdoem, quando eu acessar a internet frequentemente eu poderei me comunicar direito. Por enquanto faço minhas aparições por aqui, sempre com saudade.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Distrações

O tempo é mesmo uma coisa engraçada, né?
Não tinha me dado conta de que já conta uma semana que não desabafo assim, à baciada.
Essa semana precisei desabafar com um e outro um pouquinho de cada vez, porque estava muito ansiosa por causa de casa.
Parece realmente difícil achar casa aqui, em plena volta às aulas. Nesse momento a maioria das casas já tem pessoas e essa minoria das pessoas que ainda não tem casa parece sozinha um enxame imenso de estudantes.
Em meio à dificuldade, fico um pouco nervosa e o nervosismo não tem muito por onde escoar - ninguém para brigar, ninguém em quem botar a culpa: só eu e eu. Daí me refugio na distração, esse analgésico universal, enquanto vou tentando fazer o possível.
A distração é uma coisa engraçada, como todo analgésico. Porque é claro que a persistência da dor não cura, mas a ausência dela também não significa muita coisa. Às vezes parar a dor te deixa mais hábil para lidar com o problema, às vezes te deixa distraído dele e o mal vai se intensificando escondido. Há que se distrair mas não tanto.
Sabendo disso, toda distração excessiva e qualquer falta de esforço causam mal estar. Que por sua vez faz com que você se permita distrações tendo em vista se sentir bem para poder resolver os problemas. É um ciclo vicioso que eu tento evitar durante toda a minha vida. Não é novidade, mas é sempre uma outra esperança de aprender um pouco.
É engraçado que a gente sabe que fica feliz quando faz nossa parte, mas mesmo assim a gente demora pra fazer nossa parte. Vai entender, né.
Está aí o motivo de eu não ter vindo dar notícias. Não podia dar notícias de minhas distrações, porque seria mais uma distração, escrever sobre o problema também não ajudaria a resolver e seria mais uma distração.  Reclamar é uma distração que a gente comete frequentemente, também, sem se dar conta de que na verdade é só outro jeito de postergar as coisas.
Mas escrevendo sinceramente, teria que entrar nesse problema de postergar problemas, e encarar problemas assim, por escrito, não é muito confortável. Eu frequentemente "encontro problema em tudo", segundo algumas pessoas - o que me traz uma espécie de orgulho de uma coragem um tanto estúpida. Mas por escrito é pior.
Porque escrever é uma coisa tão íntima para mim quanto pensar, nenhum dos dois admite algo que não seja genuinamente pessoal, mas escrever é mais grave e por isso mais difícil. Em pensando, você vai, corre, para, escolhe um caminho, volta pelo outro, conversa sozinha, dá um devolteio, passa pelo mesmo lugar de onde saiu, muda de direção e esquece tudo: ufa. Em nós uma biblioteca de Alexandria precisa também ser queimada de tempo em tempo.
Tem muita gente que diz que não precisa de psicólogo porque pode fazer sozinha essa auto-reflexão.
Eu acho que todo mundo pode fazer essa auto-reflexão, mas acho que a gente evita, na maior parte do tempo. E tem isso: por mais que a gente converse sozinha, se fixar aquela idéia promissora que te ocorreu ontem à tarde já é difícil, imagina lembrar dos problemas. Concedo um parêntese, é claro: problemas gostam de aparecer, ficam pulando na nossa frente e não deixam a gente olhar pra nada com calma. Claro que a gente lembra dos problemas.
Mas o caso é que escrever os problemas (e talvez "contar" os problemas tenha um caráter parecido) é outra coisa. Você pensa para escrever, de modo que, a rigor, não deveria escrever sobre um problema. Você já pensou, já achou uma solução - ou já descobriu que na verdade não se tratava daquele problema, e pronto, o que você escreve é uma outra coisa. É quase um parecer. Que ficará fixado para outros tempos e quiçá outras pessoas. Que perigo.
Outro parêntese, só por via das dúvidas: Claro que não falo de um problema filosófico. Convenhamos, isso é brincadeirinha. Por mais grave que seja o problema do significante e do significado, ele é um pequeno quebra-cabeças. É diferente de todas as coisas que você, sozinho, deveria ter resolvido consigo mesmo e não resolveu. É completamente diferente. É sua vida e sua estupidez, é você pequenininho e frágil. Geralmente, quando a gente chega nesse ponto, a gente para.
Se a gente está pensando, a gente dá meia volta, muda de assunto e pronto. Se a gente está contando pra alguém é mais difícil se distrair, porque tem aquela coisa da objetividade da comunicação, mas se a gente está escrevendo, aí pronto: tem que ter muita coragem para lidar com seus problemas por escrito. Acho que sou uma boa pessoa para dizer dessa dificuldade visto que meus exercícios de escrita nunca duraram muito. Mas esse encarar-se me é muito caro, pelo que vale mais do que pelo que custa, de modo que as tentativas são muito persistentes. Espero que fiquem mais perenes com o passar do tempo.
Agora você percebe, junto comigo, que a enorme digressão foi também uma distração do problema que originou a digressão. Mas como já disse: falar sobre o problema também seria uma distração, visto que esse se resolve com muitas ligações e visitas, não com reclamações.
Mas, de qualquer forma, está explicado que é difícil escrever estando nervosa, visto que há a sombra de um problema não resolvido e a culpa da distração, e que é difícil escrever algo de pessoal em geral, porque você nunca sabe quando vai dar em caminhos perigosos.
À parte dos caminhos perigosos (ao menos aparentemente), estão as coisas a fazer e as distrações dos problemas:
Quinta feira tivemos uma reunião com os intercambistas (um monte!) e soube de um teste de francês que eu teria que fazer. Fiquei com medo de me enviarem de volta ao Brasil, mas depois soube que o teste tinha a finalidade de nos colocar na turma mais adequada, apenas. Ufa. Depois só fiquei com medo de acertar por acaso algumas questões (porque muitas eu respondi pelo bom senso da eufonia) e acabar indo para uma turma muito difícil. Mas acho que não acontece.
Sexta fui ver a acolhida dos alunos da filosofia, e descobri que eles têm milhões de aulas. É bem ativo o curso, deu vontade de fazer muitas matérias (já passou) e pude entender mais coisas do que eu esperava, do francês.
Tenho andado muito de bicicleta e tem feito muito calor. Domingo fui à abertura da bienal da dança, é meio que um desfile de carnaval feito em casa. Dança, dança, não tem muita. Mas tem sua graça, ver que eles conseguem criar um universo onírico com papel, pano e balões coloridos. Depois encontrei um colega do Brasil e sua namorada, ficamos conversando um tempão, misturando francês, inglês e português. Essas tentativas de entender as pessoas são ótimas.
Está um pouco mais fácil compreender as pessoas e falar algumas coisas agora.
Mas às vezes parece que o abismo entre o que é nosso e o que é estrangeiro é intransponível.
Não sei, sempre tive um problema com a intersubjetividade, com a comunicação, como se o mundo de cada um fosse muito particular e inalcançável... Não deixo de ter essa impressão, mas não dá para negar que temos lugares comuns culturais que tornam a intersubjetividade mais fácil entre pessoas que compartilham os mesmos signos.
Fico pensando como duas pessoas que falam línguas diferentes podem ter um relacionamento, e o quanto precisamos da língua para nos relacionarmos com as pessoas todas. Que signos são entendidos por todo mundo, e o quanto você é desarmado quando não compartilha os mesmos signos que o seu entorno. Você não tem nada a fazer a não ser esperar ir conhecendo devagarinho os signos alheios. Enquanto você está deslocado, eles não sabem como você lida com a sua cultura, só sabem que você não conhece a deles. "Em português eu não sou tão estúpida, sério", é o que dá vontade de dizer.
Mas não adiantaria, os seus signos incompartilháveis não são tão bons quanto os deles e o paliativo é dizer sempre "pardon pour mon français, je suis en train de apprendre", daí eles ficam todos contentes e até te ensinam alguma coisa.

sábado, 1 de setembro de 2012

Novo albergue

Desde Fourviére, um tanto de coisinha aconteceu. (Mas o cartão postal, ainda não postei! Falta grave)
Tive que mudar de albergue porque aquele estava cheio. Vim para uma casa de um francês que abriga pessoas na casa dele por um preço razoável. É um quarto com seis pessoas, mas é bom. A gente fica bastante na sala e convive mais com essas seis pessoas. Quando eu cheguei, encontrei uma moça que estava no mesmo albergue que eu, antes. Estamos todos os 6 procurando lugar para morar, e provavelmente olhando os mesmos anúncios. Pareceria uma boa solução alugarmos um lugar juntos, mas desconfio que não, porque há muitas burocracias para alugar um lugar aqui. Há burocracias para qualquer coisa. Estou muito perdida e aflita com o fato de ainda não ter casa, por isso faltei em dar notícias. É ruim fixar as coisas difíceis numa notícia que vai durar mais do que a própria dificuldade das coisas. O bom era eu resolver logo e poder dizer que eu achei um lugar e ele é bom, etc. Mas enquanto isso não acontece, não adianta muito eu não dizer nada, né? Além disso, mesmo estando um pouco nervosa, tenho feito coisas muito legais!
Anteontem comprei um celular aqui, numa espécie de camelô. Comprei um desses celulares espertinhos que acessam a internet e tudo, mas tem o teclado pequenininho. Tive que negociar em francês, fui na mesma loja umas três vezes. Não sei se fiz um bom negócio, mas o celular é legal. As poucas fotos que tirei não ficaram muito boas, pelo menos na tela dele, por isso não passei nenhuma para cá ainda.
Huyen, uma tímida resenhista culinária vietnamita
Fotos legais são as que uma amiga vietnamita tira, tem três aqui para vocês verem. Fiz amizade com ela em algumas horas - ela também dormiu aqui na casa em que estou, muito simpaticamente disse que ia passear e perguntou se eu queria ir com ela. Eu realmente não conseguia entender o inglês dela, mas achei que seria ótimo ir. Ela trabalha com resenhas de comidas! Daí fui aproveitar os conhecimentos dela. A gente foi a um restaurante na parte antiga da cidade. Acho que as pessoas esperavam que falássemos francês, ficaram um pouco decepcionadas, mas depois que pagamos a conta, agradecemos e pedimos desculpa pelo nosso péssimo francês, elas sorriram, então foi bom. Ah, e a refeição me deixou muito feliz na verdade. Huyen escolheu um pato ao vinho com batatas e uma salada lyonesa, e nós dividimos. 
Huyen insistiu em me usar como
modelo no ponto de ônibus
Depois pegamos chuva para ir até o ponto de ônibus e ficamos tirando fotos enquanto esperávamos.
Foi uma ótima noite.
Ontem Huyen foi para Milão conhecer as comidas de lá, eu passei o dia procurando como que "repúblicas" na internet. Saí para almoçar, encontrei uma padaria e pedi um sanduíche de salmão. Não imaginei que o salmão estaria cru. Confesso que foi um tanto difícil comer o sanduíche inteiro, peixe cru é algo que não foi feito para o meu metabolismo, parece.
O clima de Lyon parece meio maluco. Saí de casa com o vestido da foto, fiquei menos de uma hora fora, ia passar num supermercado na volta, mas foi impossível. Uma nuvem veio com umas gotinhas de água e trouxe um vento congelante! Eu literalmente corri para casa, com muito muito frio. Coloquei outra roupa e pude sair de novo. foi engraçado. Eu costumo dizer que São Paulo é assim, mas nunca vi uma mudança climática tão rápida.
Ontem o dono da casa em que estamos, Romain, reclamou de nossas comidas congeladas e disse que teríamos uma boa surpresa hoje. No café da manhã, de fato, tivemos um almoço! Dois tipos de macarrão, quatro de queijo, uma torta, pães, salada, geléias, leite, suco, chá, café e até sobremesa! Romain disse que isso era comida francesa. Todos nós adoramos, evidentemente.
Eu tinha combinado de ver duas casas, e perguntei para a Lada, da Rep. Tcheca, se ela queria ir comigo. O inglês dela eu entendo um pouco mais facilmente do que o da Huyen, então a gente pode conversar um pouco mais. Andamos pela cidade a tarde toda. As casas não foram muito promissoras, tenho falado com o Joaquim, para ter informações (ele ainda diz que pareço uma camponesa portuguesa, de tão burrinha), ele diz para eu esperar, que acharei coisa melhor.
Lyon à noite, foto de Huyen
Numa dessas noites na casa do Romain, ele me chamou para ir na casa de um dos amigos dele. Aqui na casa dele mesmo, só falamos inglês - acho que falei mais inglês do que qualquer outra língua até agora. Lá na casa de seus amigos, eram todos franceses, então pude ouvir as conversas entendendo metade do que eles falavam, foi bem legal, e muito simpático da parte do Romain ter me chamado. Me senti bem.
Tenho achado o francês cada vez mais bonito de se ouvir, não vejo a hora de sair por aí falando!
E também tenho aprendido a não entender o que as pessoas dizem. Não é tão fácil quanto parece, mas você percebe que precisa se conformar. Você aprende a, assim que capta o espírito da frase, livrar a pessoa da repetição infinita que seria necessária se você quisesse entender todas as frases.
Ainda é difícil para mim, porque eu gostaria de entender tudo, mas é como um tratamento de choque: estou há muito tempo sem entender muita coisa. A gente se acostuma. E diz "oh, oui", "oui, ça va", "non, merci". E acabou a conversa. (Assim, quase que na vírgula.)

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Monte de Fourvière


Ontem eu fui à Fourvière.
É uma igreja do fim do século XIX, muito bonita, que está em restauração. Ela fica no alto de um monte de onde se vê toda a cidade. A cidade é linda, o céu estava azul, azul.
Eu passei toda a tarde nesse passeio. Subi o monte por umas ruazinhas curveantes, com muros e plantas dos dois lados, e não pude ver a cidade até chegar aos teatros galo-romanos, uma das coisas mais incríveis que vi com meus próprios olhos.
Os teatros e os restos de construção em volta tem quase dois mil anos, são enormes, todos de pedra. Muitos dos restos a gente não entende o que eram originalmente, são só os restos. Mas são restos enormes, sólidos, de dois mil anos – não é qualquer coisa. A gente vê e pensa o que se passou por ali. Os teatros abrigam 13 mil pessoas, que provavelmente moravam aqui na beira dos rios. É muita gente para o século I. O que tinha na Europa nessa época? A gente não faz ideia de quanta gente passou pela terra e onde. Quantos povos contribuíram para o sumiço de algumas partes, quantas guerras passaram exatamente por ali, quantas pessoas nasceram e morreram nesse meio tempo. Daí a gente fica pensando um pouco em o que dura 2 mil anos. O quê, além das pedras encrustadas na colina, na direção certa do vento, para que quando um falasse todos escutassem? Certamente não duram dois mil anos essas construções de aço e vidro de hoje. Dois mil anos! Não sobra nada em dois mil anos! Daí a gente é tão pequenininho, que até se assusta. Temos que viver. E agora. Temos que nos dar conta de que estamos vivendo, é urgente e muito sério que sorvamos tudo isso com gosto, que aproveitemos os segundos e percamos menos tempo com coisas bobas, porque o que é real é o insólito, pequeno e infinito pedaço de agora que a gente vive.
Não sei o que acontece, eu não consegui formular ainda, mas fiquei muito impressionada com o lugar. E além disso dá uma saudade desse povo que foi e é sempre comigo.
Ainda não consigo falar direito com as pessoas em francês, é nessa hora que os queridos fazem mais falta. Daí é bom escrever, é como se eu estivesse mais perto. E posso filtrar o que é realmente importante do que acontece por aqui, além de reafirmar o que é realmente importante na vida, que não são esses vinte ou dois mil anos, mas é o que a gente tem, cria, estabelece, aquilo pelo que a gente zela, aquilo que a gente lembra quando tem medo, as pessoas com quem a gente quer falar só para passar um bom tempo.
Sem isso, a fugacidade das coisas realmente assusta. Foi o que bastou para que eu escrevesse o primeiro cartão postal, para meus pais (que ainda não postei, aliás).
Depois eu fui visitar a grande igreja de Fourvière. E quando eu estava lá, olhando, entrando, a visitação terminou porque a missa ia começar. Sem saber exatamente que queria ir à missa, me senti como que chamada a isso, pela coincidência das coisas, e fiquei. Foi engraçado ouvir tudo em francês, deu até para entender uma coisa ou outra. Fiquei pensando, e não sei o quanto a gente precisa de Deus para nos confortar. Não sei o quanto isso funciona para cada um, não sei nem o quanto funciona para mim. Fico entre a tentativa de acreditar em alguma transcendência (ou imanência, mesmo, mas não é fácil, mesmo assim) e a tentativa de treinar aceitar um estar-sozinha no mundo, que às vezes é difícil, e que já ouvi ser orgulho – quem sabe? No mínimo, posso dizer que foi bom reencontrar, depois desse deslumbramento, uma certa tradição a qual eu devo algo que não sei bem o quê.
E o sentimento de calma, que começou com o cartão-postal, foi ficando comigo pelo fim da tarde. Vi a cidade inteira do mirante da igreja, e depois fui descendo muitas escadinhas até chegar à beira do rio, e vim “beiradiando” o rio até em casa. Foi uma boa tarde de domingo, de verdade.
Quanto à hoje, foi mais sucinto. Acordei bem tarde, fiquei à procura de lugar para dormir amanhã, porque não reservei aqui onde estou com suficiente antecedência. Encontrei. Eu também pensei que tivesse perdido a senha do meu cartão de crédito, o que seria algo suficientemente grave. Mas encontrei também (e pude alugar uma bicicleta para passear. Uma delícia pedalar aqui - mais tranquilo do que no centro de Três Lagoas). É engraçado, eu penso que faço as coisas com pouca prudência, muitas vezes; a cabeça em outro lugar. Depois me preocupo demais e me culpo por não ter tomado cuidado. E depois sempre acontece alguma coisa que ameniza o problema, é o mais engraçado isso.
E minha mãe sempre me dizendo para confiar – mães costumam saber das coisas. Mas eu sou teimosa nos meus medos. Até admito: talvez acreditar em Deus ajudasse. Mas é que, confesso, me parece um pouco mesquinho mobilizar toda uma ontologia só para isso. Eu devia simplesmente tomar mais cuidado antes, e aceitar as coisas depois. Ou posso tentar o amor fati nietzschiano e, aconteça não importa o quê, querer que as coisas se repitam exatamente como foram. Ou fazer uma sopa com tudo isso. Vamos vendo, né, como encarar cada coisa dessa vida. Mas, sobretudo, vou tentar me inspirar na confiança de mamãe, e ter coragem sempre que me sentir pequenininha.
Beijo a vocês queridos, até breve!

sábado, 25 de agosto de 2012

Sábado chuvoso


Foi um sábado que passou um pouco rápido porque acordei tarde em razão de ter ficado até de madrugada conversando com uns brasileiros e eslovenos, em inglês. Aqui no albergue é ótimo, as pessoas são todas de lugares diferentes, você nunca sabe em que língua deve falar e acaba falando inglês. É difícil falar inglês aqui, porque eu confundo as línguas e troco todas as palavras. Um samba do criolo doido - mas a gente se entende.
Se é assim com o inglês, que vemos todo o tempo, que dirá com o francês, que, na ansiedade que eu estava antes da viagem, ficou sem atenção nenhuma.
Por isso ontem fui a duas escolas de francês, na intenção de fazer um curso intensivo antes de começar a viver aqui: é muito ruim esquecer tudo quando você vai falar com as pessoas, trocar a conjugação dos verbos e só se dar conta depois que a conversa já acabou. À medida em que você vai errando, vai meio que se desencorajando. Ademais tem a compreensão, que é très difficile. A gente consegue se entender, mas fico me sentindo desconfortável por ter que fazer o outro se esforçar para ser entendido, etc. Como eu dizia, fui a duas escolas, mas ambas (todas as que eu vi na internet, também), estarão de férias semana que vem, então na próxima semana pensarei em como fazer algum curso de francês, porque afinal ainda não sei que horas terei aula de filosofia, que dias.
Vi um anúncio de uma pessoa que trocava um quarto em sua casa pelo serviço de cuidar das crianças: majoritariamente levar e buscar na escola e ser babá às vezes. Eu queria cuidar de crianças, até porque dizem que elas ensinam a gente a falar francês sem dó nem piedade. Mas ainda não sei se seria possível, por causa do horário das aulas. Em paralelo a isso, estou vendo anúncios de moradia, casas, gente procurando gente com quem morar - e mandando e-mails, para ver se estão válidos (muitos já estão obsoletos, outros só valem a partir de setembro, alguns do meio de setembro)...
Passei o dia mandando esses e-mails, sobretudo. O Joaquim, que eu conheci na faculdade, tinha colocado uns anúncios para me ajudar, ele disse que teve duas respostas, e disse que perguntaria os preços, etc.
Sei que vai dar tudo certo, mas enquanto não tenho casa, é tudo um pouco mais aflitivo. Tenho que fazer malabarismos com minha mala gigante sempre, pegar coisas, guardar coisas, enfiar tudo na mala, fechar, mudar de quarto às vezes, por causa de alguma re-arrumação do hostel... Dormir, tomar banho, fica tudo um pouco mais complicado com trinta quilos para cuidar.
Quanto à cidade, continua quente, hoje choveu de novo, muitas lojas estavam fechadas pela vizinhança... Aqui no albergue estamos na parte mais antiga da cidade, uma parte que é patrimônio mundial da unesco. Ainda não explorei o suficiente, em breve eu o farei, daí detalho.
Agora vou comer porque hoje não comi quase nada. Estava cansada de comer lanches e fui ao supermercado. Mas como aqui não é minha casa, não comprei coisa para cozinhar, comprei uma lasanha de microondas, que pelo menos vai ser melhor do que outro sanduíche. Na rua eles só tem hambúrgueres aqui! E kebabs, que lá em são paulo somos alertados para não comer. Aqui já comi uma vez no mcdonald's, já comi no subway... Mas o que vi mais mesmo, até agora, foi cabeleireiro. Sério mesmo. Engraçado, né? Ah, e aquela nova moda, dos macarons... Mesmo aqui eles são muito caros, tenho preferido os chocolates.
Gostei muito de saber que alguns de vocês gostaram de ler essas bobeirinhas quotidianas. No fim eles não são nada além de uma conversa mesmo, e, puxa, como é bom desabafar um pouco na língua materna! Além disso, saber que pessoas queridas estão lendo me lembra que tenho comigo sempre um monte de gente incrível. Obrigada, pessoas, e até logo!

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Em Lyon agora!

Pelos próximos quase-6-meses estarei em Lyon, estudando, aprendendo francês, conhecendo lugares e pessoas incríveis e descobrindo mais um pedacinho do mundo e de mim mesma. Por essa boa razão estarei longe de muitas pessoas queridas. Pra elas me acompanharem se quiserem e também pra guardar um pouquinho dessa experiência, achei uma boa postar algumas impressões aqui, como um diariozinho. Nunca consegui manter um exercício de escrita por muito tempo mas, como este tem motivações, me propus a ver quanto tempo ele dura. Antes do texto, duas coisas: tranquilizem-se com o tamanho: este ficou maior do que os próximos ficarão porque é o primeiro, tem mais "primeiras impressões". E peço a vocês que considerem-no literariamente apenas na medida em que uma conversa despretensiosa com alguém em quem se confia é literária. Não reli e pensei duas vezes sobre muito poucas coisas. É isso, allons y!

Às 20:30 de 24/08/2012 o céu ainda está claro no verão daqui, as luzes começam a ser acesas.
A cidade fica em torno do encontro de dois rios, bordeados por construções antigas. São lindos. Não vi quase nenhuma construção branca até agora, a maioria variando entre o rosa e o amarelo claros, de 6 ou 7 andares. Não vi prédios muito altos, nem andei por região de casas térreas, e vi quase só um tipo de árvore: as "platanes", bem grandes, muitas acompanhando o rio.
O albergue em que estou é uma gracinha, todo colorido, limpo, bem iluminado e com móveis de boa qualidade.
Ontem eu andei pela região aqui perto da praça de Valmy. Muitas lojas estão fechadas para as férias de verão, o que seria bem engraçado no Brasil. Tentei achar um supermercado e passei direto, porque apesar do nome "Monoprix", ele parecia uma loja de roupa, por fora, tipo as Pernambucanas. É engraçado ver a globalização no supermercado. As marcas são muito mais internacionais do que eu pensava! Aqui o pão é barato. O tomate também, e são todos bem vermelhinhos, mas o gosto dos dois tipos que provei era bem parecido com o do Brasil. O kinder-ovo, chocolate em geral, balinhas e geleias são "pas chères" (porque barato é uma palavra que nem existe aqui). A água não é a mesma do Brasil, infelizmente, mas acho que a gente logo se acostuma. Foi engraçada a primeira vez que respirei fundo aqui em Lyon, depois de acomodar as bagagens. O ar estava bem úmido, um pouco pesado, um cheiro de rio, tudo diferente, que agora eu não percebo mais. É a mesma sensação da água, ser um pouco mais pesada, um pouco mais básica também. Às vezes parece que não vai matar a sede!
É engraçado escrever nos primeiros dias, porque temos muitas impressões novas. Conversamos pouco com as pessoas e ficamos observando o tempo todo.
Hoje estava observando três eslovenos falarem. Engraçado.
Quanto à falar com as pessoas, nas primeiras vezes em que fui falar francês fiquei muito nervosa e esqueci tudo de uma vez. As pessoas me perguntavam se eu falava inglês e eu me confundia igualmente, deve ser engraçado de ver. Hoje eu fui à faculdade, peguei uma chuva torrencial no meu caminho à pé. Ontem também choveu, ambas as chuvas "de verão": meia hora depois fazia sol, e muito calor.
Já tenho a carteirinha de estudante, mas ainda não sei de quase nada do meu futuro semestre. Amanhã volto à universidade para conversar com a pessoa responsável pelo alojamento e também para saber que aulas vou cursar. Hoje, lá, por coincidência falei com um senhor português, Joaquim, que perguntou de onde eu era e começou a falar em português comigo: disse que nunca viu uma brasileira tímida, me repreendeu um pouco, me ajudou a saber de um monte de coisa e disse: "coragem, Maria!". Haha... Na verdade, não acho que eu deva me cobrar essa coragem agora, porque não é fácil estar sozinha num lugar novo, onde eu não conheço os costumes e regras e ainda me atrapalho toda ao me comunicar! - Mas foi muito bom ter ouvido isso, vou me lembrar que posso me sentir um pouco mais segura.
Aliás, em geral, todas as pessoas a quem pedi ajuda foram muito simpáticas.
E aqui as pessoas que tenho visto na rua são todas diferentes umas das outras. Vi algumas moças com véu na cabeça, algumas pessoas que pareciam de origem cigana, e talvez tenha visto mais negros do que costumamos ver em São Paulo. Até que vi bastante criança, também, não tantos idosos quanto se diz.
Sobre o transporte público, não sei o quanto da cidade ele abarca, mas na aparência ele é bom: o metrô, os trens e os ônibus são todos novinhos. O metrô não tem muitos vagões, a bilheteria é uma maquininha que só aceita moedas, e os trens tem uma integração com a cidade muito bacana: a linha de trem é aberta, o pequeno trem cruza com carros, bicicletas e pedestres. Como não são 20 milhões de habitantes e não tem tanta gente na rua (talvez até por causa das férias), esse sistema pareceu funcionar bem.
Assim que puder, compro um celular e tiro fotos dos meus próximos passeios, para vocês verem. O céu é bonito como sempre, mas ainda não conheci as estrelas. Não farei isso hoje - hoje vou dormir, porque já está tarde aqui. Até logo!

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Dar-se

       _Dá sua mão?
       Ela segurou carinhosamente a mão dele, e, se apercebendo do que disse, a apertou junto ao peito, brincando: "agora é minha". E sorriu; criança. Ele sorriu em resposta e pediu que lhe desse então sua bochecha, marcando sua propriedade com um beijo. Ela pediu por seu cabelo e ele pela sua cintura, puxando a moça que sorria para junto de si.
       Assim, nesse pouco falar, os dois se sabiam, não possuidores um do outro, mas entregues, desapegados de si - e por isso livres.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Laço

Ainda entre os escritos antigos, também este:

Vi um laço no lixo. A cena era bonita e triste, e me remetia muita coisa. Nenhum laço merece o lixo. E vivemos deixando laços de lado, sem fazer a menor questão deles.
Vai ver... Vai ver alguns laços são só pedaços de fita.
E vai ver todos são, mas a gente estreita alguns melhor. E os outros, não é "que vão para o lixo!", mas é que tanto faz onde estejam.

Da raiva

Revisitando antigos escritos, encontrei este:

O problema não é falar sem pensar. Falar sem pensar é bom, é libertador.
O ruim é falar com raiva. Não se deve falar muito, estando com raiva, não só porque fira as pessoas, mas também porque esse não seja um sentimento digno de ser fixado pelas palavras e propagado.

Talvez seja assim, a raiva não é mesmo um sentimento confortável.

Lembrete

Vi num lembrete que escrevi há um tempo:
É bom que você não vire outra pessoa ao entrar num relacionamento, porque se tiver que sair, seu eu-anterior pode estar do outro lado da porta, como você o deixou, e de alguma forma você terá que lidar com aquele estranho.

Na verdade o importante é não se alienar de si mesmo. No outro ou em qualquer coisa. Quando existiu algo no mundo que você sentiu que era responsável por você ser como é, você então projeta uma culpa ou um mérito, e você continua fora de si, em desacordo, correndo sempre o risco de encontrar consigo em qualquer esquina, estranhando você mesmo, que é a única coisa que você tem de fato. Não é bom.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Falta poesia

Hoje, lendo o blog de um distinto rapaz, invejei um tanto quanto saudosista sua habilidade não só com as palavras, mas com o sentir. Com o sentir o quase-imperceptível.

Minha vida anda precisada de poesia. Eu ando precisada de poesia.
Parar, ler, pensar, sentir.

"Mas como?"
- A parte rasa de minha razão se pergunta, argumentando desentendida.
"É uma das épocas mais coloridas da minha vida, essa que estou vivendo!".

Engraçado é que é, mesmo.
E não deixa de precisar de poesia.
Não é que lhe falte graça. Graça ela tem.
Risos, amores, beijos, insanidade e tudo o mais.

Só falta é poesia.
Só falta olhar, até com vista errada
Pra cena certa, na cor certa, no contraste certo.
Falta achar que acerta.
Mesmo enganada.

Ser sublime, ter sal e ser simples,
A Maria não sabe.
Precisa ser calma, firme, e ir direto ao ponto.
Achar que se cabe. E ponto.

Exagerar nas exclamações e experiências, ultrapassar as interrogações e encher a vida de reticências...

Ela precisa voltar a procurar o Sol se pondo manchado no céu laranjado.
Ela precisa parar de correr.
Ela precisa prestar atenção no caminho, e no destino.
Ela precisa ter calma.
Ela precisa medir a saudade.

Engraçado que, na verdade...
Podia até errar na euforia,
Podia até morrer de saudade,
Se visse que também isso é poesia!
Pobre Maria!

domingo, 16 de setembro de 2007

Socorro!

Socorro!
Não encontro mais palavras
Nem saber, pensar, dizer
Não vai dar mais pra ouvir,
Nem contar

Socorro!
Algum versado
Mesmo que sofista
Me ensine outros verbos
Já não sinto ser, nem crer,
Já não sei de nada

Socorro!
Alguém me tira o pensamento
Que hoje me fugiram
As palavras
Por favor!
Um remanso apenas
Qualquer coisa!
Qualquer coisa
Que se explique

Tem tanto entendimento
Deve ter algum calado
Qualquer coisa
Que se explique
Tem tanto entendimento
Deve ter algum calado

Socorro!
Alguma explicação para as não-palavras!
Que já estou sem norte
Sem sorte, amazorrada
Socorro!
Já não ouço nada

Socorro!
Não encontro mais palavras!
Nem saber, pensar, dizer
Não vai dar mais pra contar,
Só sentir.

Só sentir.

sábado, 1 de setembro de 2007

Como eu ia dizendo...

Eu cheguei aqui por engano.
No meu planeta há grupos de seres que marcam algum dia pra trocar de papel. Construtores que vão trabalhar na feira, cozinheiros que vão traficar chicletes alucinógenos, enfim...
Eu participava, era bem divertido, aprendi várias coisas inúteis, como preparar duendes grelhados ou ajustar a freqüência de mini-teletransportadores.
Mas era complicado, antes do tal dia tínhamos que esclarecer várias coisas, pra não estragar a vida do outro. E mesmo assim sempre dava alguma coisa errada.
Certa vez, depois de um dia desses, minha "substituta" me ligou do meu bar predileto. Estava se divertido com meus amigos, tomando a minha bebida preferida, comendo minhas pastilhas preferidas. E disse que isso era bom, porque assim eu teria meu meio de volta, quando voltasse da expedição.
"Que expedição??" - Perguntei, assustada.
"Ué, eu te avisei: 'nesse dia vamos pra Terra'"
"Eu tinha entendido 'nesse dia vamos pra guerra'!"
- Por mim estava tudo bem, eu jogaria uma partida de buraco com o inimigo e pronto. Não sou tão boa, mas sempre tive vontade de ir pra guerra.
"Não, não... É pra Terra, mesmo. Um planeta no braço de Órion da Via Láctea"
"Ãhn?"
Eu não sabia nada de geografia espacial...
Aí ela começou a explicar... Fiquei com raiva, nessa hora: Só aí soube que estava vindo pra um planetinha sem pastilhas sabor sorvete de mankce.

Mas, bem, tirando isso, achei que poderia ser legal, pra me conformar. Me senti até importante, como pesquisadora espacial, essas coisas.

Chegando aqui fiquei maravilhada com algumas coisas, consternada com outras... "Puxa, esses humanozinhos são mesmo criativos!", pensei, feliz, a princípio.
Mas o que mais me surpreendeu foi o RPG.
Interpretar papéis sem o risco de ter que pesquisar sobre a vida, o universo e tudo o mais num planetinha miserável sem pastilhas sabor sorvete de mankce!?

Como ninguém lá no meu planeta pensou nisso antes?


[Numa conversa com o Sr. Ornitorrinco eu contei minha triste história e acabei recebendo um meme por ela. (Céus! A história ficou ruim, mas não era pra tanto!) Mas, enfim, acabei também sendo aliciada a postar no blog. Palavras dele: "eu acho que vc devia postar [...] faça isso como teste, e avalie a reação das pessoas [...] É questão de usar a estupidez e total falta de gosto (destruído por anos de programação ruim da TV) do seu público."]

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Apógrafos - II

Paulo Leminski


ERRA UMA VEZ

nunca cometo o mesmo erro
duas vezes
já cometo duas três
quatro cinco seis
até esse erro aprender
que só o erro tem vez

Em "LA VIE EN CLOSE"



ali
só
ali
se

se alice
ali se visse
quanto alice viu
e não disse

se ali
ali se dissesse
quanta palavra
veio e não desce

ali
bem ali
dentro da alice
só alice
com alice
ali se parece

Em "Caprichos & Relaxos"

domingo, 19 de agosto de 2007

Só pra guardar.

E com um marcador só, sem nem fazer jus a ele.

Zerei.

domingo, 12 de agosto de 2007

Apógrafos - I

"A Maria é chata. Vou estrangular a Maria."
Com amor, de meu irmão caçula.




E, já que não tinha postado nada do Dahmer antes:

domingo, 3 de junho de 2007

Mais simples

A gente acha que deveria saber o que deve fazer.
A gente acha que deveria saber como fazer.
E a gente acha que deveria saber o que vai acontecer agora.

A gente faz planos e a gente aposta neles, e se apóia neles.

A gente tenta ser coerente.
A gente tenta ter controle sobre nossa vida. Tenta sempre.

A gente pensa nas conseqüências.

A gente tenta resolver os problemas.
A gente se esforça pra resolver os problemas.

A gente quer estar feliz.
A gente sempre quer estar feliz...
(Mas a gente nunca sorri.)


Tudo parece um despropósito tão grande. E a gente continua se preocupando, e se preocupando, e se preocupando, e os despropósitos aumentam, e a gente nunca os entende ou descomplica, mas nunca se conforma com isso, também...


Porque a gente não pode simplesmente... viver?

quinta-feira, 22 de março de 2007

Testezinho interessante

(E feliz... Hahahahaha)

Um amigo me passou um daqueles testes de personalidade.
Só que um baseado em Jung. Como estimo o amigo e o teste era rápido de fazer, eu fiz. E deu um resultado engraçado, curioso.
Elevou meu ego, como todo teste de estereótipos que se preze. Ou mesmo que não se preze... Hahahaha...
Bom, elevou meu ego tirando a parte que diz que não presto atenção aos sentimentos das pessoas, e que sou tão avoada que não presto atenção a tarefas rotineiras, como pagar contas ou me "vestir apropriadamente". Mas é curioso mesmo assim (não que seja verdade, não é isso... Hahahaha).

Aqui está o teste, se quiser fazer. Depois me diga o que deu, é claro. Hahahaha.

O meu resultado é esse, mas isso tá aqui só pra eu poder fazer depois de um tempo e comparar. Meus documentos, word ou bloco de notas estão obsoletos, o negócio agora é guardar coisas inúteis no seu blog. Hahahaha...

quarta-feira, 14 de março de 2007

Sobre os pequenos pedaços de vida. E de morte.

Às vezes dá vontade de gravar a vida. Pra poder assistir de novo, um dia.
Quando era criança pensava que poderia muito bem ser assim, quando morrêssemos.
Mas como não temos a garantia de que a vida será gravada, quardamos pequenos retalhos.
Um diário. Uma foto, um álbum cheio delas, várias cartas, antigos cadernos, lembranças de amigos, de lugares, de instantes, de pensamentos, de modos de ver o mundo... Lembranças de você mesmo, do que você era e do que o mundo era, numa, talvez, tentativa de imaginar como poderá ser, depois.
Menos poética e mais recentemente, um blog. O histórico do MSN ou, simplesmente, os recados do Orkut.
Eles estão lá, ordenados por data, marcando dia por dia, recado por recado, pessoa por pessoa, amigo por amigo, desconhecido por desconhecido, desconhecido que virou amigo, amigo que hoje é desconhecido, desconhecido que passou, amigo que mudou de cara... Mas você não sabe disso, não lembra.
Até que o "um dia" em que você ia assistir à vida de novo, ou o que acha que foi a vida, mas que não são mais que aqueles fragmentos que conseguiu prender, resolve chegar. Sem nenhum motivo especial... Você só ia limpar a gaveta, o armário, rearrumar o quarto, achou a tal pilha de papéis, o tal álbum de fotografia, a caixa de lembranças, estava à toa pela internet, resolveu reler os escritos do blog.
Mas é tão estranho rever isso tudo...
É tão estranho, aquela vida, aqueles retalhos de vida, de conversa, eles... Eles parecem pouco vivos. Digo, eles estão mortos! Mas parece que não foram vividos, não como deveriam... Parece que cada conversa, debate ou discussão, poderia ter sido tão mais longo, divertido e proveitoso...
Foram-se uns tempos, vieram outros.
Adorável virem outros, o que parece que é nunca aproveitamos os "uns" que foram, direito.
Acho que o pequeno pedaço de vida eterna poderia muito bem ser assim quando morrermos.
"Que raiva, por que não gravamos tudo?" Pensaremos, a princípio.
E então começaremos a rever o filme de nossa vida. Mas mais rápido, rápido o suficiente pra não pensarmos que estamos revivendo, além de não lembrarmos da monotonia da pobre. Pensaremos é que vivemos mal e pouco tudo isso.
Seria um belo martírio...
No fim, como Deus é bonzinho, antes dos créditos, passariam uns poemas de Álvaro de Campos, pra acabar com o saudosismo. Depois lemos algumas das belíssimas frases de Brás Cubas, damos umas risadas sarcásticas e dormimos um sono merecido.

segunda-feira, 5 de março de 2007

Mais música clássica

"Há música para os mais variados tipos de doença: Mozart. Beethoven. Schumann. Chopin. Brahms, Ravel. Os médicos deveriam receitar aos seus pacientes, junto com os remédios bioquímicos, a música...

Bom seria se a música clássica se ouvisse nos consultórios médicos, nas escolas, nas fábricas, nos escritórios, nas rádios. Há cidades que têm essa felicidade: rádios FM que tocam música clássica o dia inteiro. Infelizmente não é o caso de Campinas. Mas poderia ser... A música clássica desperta, nas pessoas, aquilo que elas têm de melhor e de mais bonito. Música clássica contribui para a cidadania." Rubem Alves


"Uma saudade indefinível de um lugar encantado em que você nunca esteve", é uma das coisas que Rubem Alves diz que a Música Clássica suscita nele.


E eu aqui pensando: "Diabos, eu conheço tão pouco!"
Preciso começar logo minhas incursões por esse mundo nostálgico, mágico, surreal.
Coisas assim são imperdíveis.

E estou cada vez mais fã de Rubem Alves.

Ah, e esse texto eu achei ao procurar alguma dica de alguma música clássica ideal pra bebês, recém-nascidos. Não sei, algo calmo, leve. Estou ouvindo Mozart, Ravel e Tchaikovsky, pra ver se acho o que quero.
Conheci hoje um pequenino, já muito querido, que quero presentear.
Tomara que ele não fique tão relapso quanto a Maria, quando crescer.